Maria Goreti de Oliveira Ulbricht. Nasceu em Blumenau, mas é Lagunense de coração, e Itajaiense por opção. Casada, tem dois filhos. Pedagoga, profissional da educação pública, atualmente desempenha a função de Diretora de Escola. É uma pessoa alegre, extrovertida que adora ler, escrever e "contar causos". Tem como hobby fazer novos amigos e conservar velhas amizades.
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SAPATO APERTADO
O relógio marcava 18h00h, quando estacionei meu carro na garagem, depois de um dia estressante de trabalho. Fui direto para a cozinha, botei uma chaleira de água para ferver, enquanto botava a mesa para o café. Nisso, escutei o barulho do carro do meu marido chegando. Não demorou nada, para ele entrar na cozinha, carregando nas mãos o pão e o leite, para o lanche nosso de cada dia.
Notei que sua expressão era de quem estava incomodado com alguma coisa. Ao acomodar as sacolas em cima da mesa, foi logo dizendo: “olha! Este sapato eu não quero mais!
Dei a volta na mesa, para poder olhar para os pés dele.
Para minha surpresa, vi um par de sapatos novos, lindos! Daqueles de couro bem molinhos e costurados a mão. Um sapato ante stress, que eu havia comprado para os meninos darem de presente, no dia dos pais.
Olhei para ele, meio decepcionada e tentei argumentar: mas, este sapato, é novo!
Tu provaste, ficou bom!
Como é que agora, tu chegas em casa dizendo que ele não serve e que não queres mais?
Não sei! Só sei, que não quero mais estes sapatos. Eles estão me incomodando desde manhã. Olha, das duas, uma! Ou o meu pé cresceu ou o sapato encolheu.
Pode dar para alguém, porque estes sapatos eu não uso mais. Ele ainda falava, quando suas mãos ligavam o controle remoto da TV. A cozinha foi invadida pelo som da trilha sonora da novela das seis da Rede Globo. Na época passava “Alma Gêmea”, e Luiz acompanhava diariamente, não perdia um capítulo.
Até hoje, não sei se pelo conteúdo da novela que era meio espiritualista, ou se pela beleza da Flavia Alessandra, que ele acha lindíssima! Só sei que, vendo sua novela preferida começar, na mesma hora, puxou uma cadeira, bem na cabeceira da mesa, seu lugar preferido e assistiu todo o capítulo daquele dia. Em seguida assistiu também o jornal local da RBS/TV. Depois passou para o jornal de Band, mais tarde o Jornal Nacional, o filme retro Bonansa, e por aí foi...
Passava da meia noite, quando ele subiu para tomar banho, trocar de roupa e acomodar-se para dormir.
Não, sem antes reclamar, uma vez mais do sapato que “ainda” o incomodava nos pés.
Já te disse que não quero mais este sapato?!
Pois é, amanhã pode dar para a Maria levar para o marido dela.
Enquanto ele falava, eu o escutava e observava seus movimentos. Sentado na beirada da cama, retirava os sapatos com a sensação de que nunca mais os calçaria. Foi nesse momento, que ele ajeitou os dois pés de sapatos, rente a parede do quarto. O que facilitou para mim, que já estava deitada, olhar para o sapato e ver que havia algo à mais no bico de cada um deles.
Me levantei, peguei os sapatos e coloquei minha mão no interior de um deles. Meus dedos deslizaram até o bico do sapato e senti algo fofo e liso. Resolvi puxar! Em cada pé de sapato havia nada mais, nada menos, do que um pé de meia! As meias, que ele havia levado para passear, o dia inteiro, eram do mesmo tom marrom dos sapatos, talvez por isso ele não tenha enxergado.
Ufah! Que alívio!
Luiz! Luiz! Venha aqui! Ele que já fechava a porta do banheiro para dar inicio ao seu banho, voltou para ver o que se tratava.
Olha!
Mas, olha com bastante atenção e veja com teus próprios olhos, o porquê teu sapato estava te apertando o dia inteiro. Tu andasses o dia inteiro com um pé de meia no bico de cada sapato. Com é que tu não notasses que tinha alguma coisa, dentro do teu sapato?
Eu estava desconfiado que havia algo de errado com o sapato, mas não podia imaginar que tivesse algo no bico do sapato. Muito menos uma meia, “socada no bico dele”. Provavelmente, foi a Maria, que ao arrumar o quarto, viu as meias sobre os sapatos, em vez de colocar para lavar, resolveu guardar dentro do próprio sapato. Como eu iria desconfiar, de uma coisa dessa? Aqui em casa ninguém tem o hábito, de guardar meia dentro dos sapatos, exclamou ele. Entre risos e indignação.
Mas, o mais incrível nessa historia é, como alguém pode andar o dia todo e assistir TV por seis horas à fio, com algo incomodando dentro dos sapatos e não retirá-los para ver o que tinha de errado?!