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A SABEDORIA QUE O TEMPO TRAZ


Juquinha Pandiá era homem de pouco estudo. Passou tempo curto na escola, mas conseguia rapidinho juntar as letrinhas e formar as palavras. E foi assim, sozinho, que aprendeu um montão de coisas. Lia tudo o que lhe passava pelas vistas. Até que resolveu enfrentar a Bíblia. De cabo a rabo em poucos dias. Releu. Gostou tanto que começou a freqüentar igreja com ar de autoridade. Entrou para a Irmandade do Santíssimo e depois para a Conferência Vicentina. Não perdia uma reunião para mostrar seus conhecimentos bíblicos. Virou o orador oficial das duas agremiações.
     Fama do Pandiá passou a correr na cidade por causa dos seus conhecimentos bíblicos. Fazia citações de cor e salteado, a torto e a direito, menos em presença do vigário. Como ninguém se dava ao trabalho de conferir, ficava tudo por isso mesmo. De vez em quando cascava citações bíblicas nos seus discursos que viravam sermões só para ver, sentir e se gabar do seu domínio sobre a platéia. Meninos assustados se enfiando debaixo da asa das mães, mulheres chorando, homens se convertendo, casais se reconciliando, tudo por obra e graça de são Juquinha Pandiá.
     Um certo dia, a grande notícia. O senhor bispo, a maior autoridade das redondezas, iria visitar cidadezinha do Pandiá. Tabuí estaria em festa. E quem melhor para saudar sua Reverência?
     Juquinha preparou discurso. Vários dias antes, estava pronto para descascar a verborréia na autoridade. Senhor bispo chegou. O orador, cerimonioso, começou a soltar as palavras aos borbotões. Era depois do almoço. Sua Reverência, como tinha abusado muito do frango frito com farofa e maionese, cochilava... Na emoção de presença tão importante, não é que o Pandiá foi esquecer o melhor do discurso? E resolveu, aproveitando o cochilo de sua Reverendíssima, inventar alguma coisa para não fazer feio perante a platéia conterrânea.
     - ... A vida, meus irmãos, é uma cebola que se descasca chorando, conforme está escrito em Marcos, Capítulo 20, versículo 20...
     O bispo abriu um olho meio assustado... Abriu o outro também. Olhou interrogativo pro Padre Anacleto que dormia sono solto acalentado pelas palavras do Pandiá. Rapidinho a autoridade consultou umas folhas da Bíblia que tava de folga no seu colo e deu um pulo da cadeira, vermelhão.
     - Mas, figlio mio, in Marcos non tene il Capítulo 20...
     Juquinha Pandiá, convicto como sempre, nem deixou o bispo terminar a frase. E sem perder o rebolado, arrematou:
     - Não tem, mas bem que podia ter, sua Santidade!... E, afinal, eu tô falando de cor e o senhor tá com o livrinho! Isso é deslealdade!...





Um cadim de mim Um menino que nasceu e começou a crescer lá no interior do interior pescando piabas, traíras e chorões no anzol e no puçá... Pegando juritis e saracuras na arapuca... Chupando ingá, gabiroba, peidorreira, baco-pari, araçá, mangaba e cagaita... Montando cavalo em pêlo... Bebendo leite direto dos peitos de vacas, éguas, cabras e ovelhas... Comendo pururuca, angu com couve e torresmo... Morrendo de medo de assombração, evitando mato para não virar comida de onça... Fazendo promessas pra São Sebastião, São Jorge e Santa Bárbara... Garrando com o chefe de tudo quanto é santo para não deixar nenhum insatisfeito... Acreditando no coisa ruim, em mal-olhado, em assombração e no saci pererê... Curando cobreiro e inflamação de aroeira com a Maria Geroma, à custa de muita Ave-Maria e fio frio da faca afiada... Educado sob a batuta do chicote e ameaças de castigo de Deus, nosso Senhor... Trabalhando como candieiro guiando carro de boi... Trabalhando como meeiro e tarefeiro no cabo da enxada... Ajudando vaca na hora do parto... Vendo a Joaninha apanhando do Zé da Ponte do Bode enquanto ele cobria de mimos e beijos a mocinha Julieta... Bebendo chá de mané turé, carqueja, fedegoso, chapéu de couro, congonha... Comendo beldroega, broto de aboboreira, miolo de gueroba, frango com pequi, angu com quiabo, quibebe, inhame com leite... Assistindo a boiada passar... Vendo o trem de ferro apontar na boca de um corte e sumir na outra carregando boi, muquiça e gente... Vendo a enchente destruir as roças de arroz e milho do pai... Arrancando mandioca no muque pra farinha e o polvilho do ano... Fazendo paçoca de carne seca e socando arroz e café no monjolo de pé... Indo pra escola a uma légua de distância no cavalinho da orelha murcha... Convivendo e conversando com João Pelota, Zé Rosa, João Garrote, João Geada, Zé Ficiano, Zé Pelotin ha, João Garrotinho, João do Zé Ficiano, Zeca do Zé Ficiano, Zé Albino, João Miguel, Zé do Orico, Zé Taviano, João Vergina, Zé Cota, Zé Ramo, João do João Vergina, Severo... Só podia dar no que deu, no meio de tantos zés e joães : um escrevedor de coisas da roça.