Economista e advogado. Lagunense mora e atua como consultor jurídico em Florianópolis, onde colabora com artigos em jornais. Aprecia clássicos como Camões, Castro Alves, Érico Veríssimo e outros. É membro da Sociedade dos Poetas Advogados de Santa Catarina,entidade ligada a OAB/SC.
NATAL CHUVOSO
Poucos dias antes do natal de 2001 na madrugada de uma manhã chuvosa e até fria para aquele dezembro, eu caminhava de casa para o trabalho e presenciei uma cena que gosto de lembrar e agora conto, porque recentemente alguém me fez pensar que foi algo incomum. Um cidadão bem vestido, de terno e gravata de bom corte e tudo combinando, caminhava na minha frente carregando uma pasta tipo executivo, um pacote grande que parecia de documentos e um papel transparente contendo um panetone grande a aparentemente "dos bons". Alguns metros adiante uma destas meninas mendigas que dorme na rua e acordam sujas e sem banho o interpelou: Senhor eu quero lhe desejar um bom natal, mas vou ter a ousadia de lhe pedir que me doe um pedaço deste pão porque estou com muita fome. Ouvi porque estava muito perto e imaginei que pela aparência do cidadão ele sequer responderia ou daria qualquer atenção, mas qual não foi minha surpresa, quando ele colocou a pasta e o pacote no chão molhado, abriu o pacote de panetone, partiu ao meio e tentou fazer a entrega à menina, sem dizer uma palavra. Para minha surpresa a menina não o recebeu de imediato e falou: Senhor estou com as mãos muito sujas porque estou juntando latinhas de cerveja para vender, será que o senhor não poderia embrulhar o "meu" pedaço em parte deste papel para que possa primeiro lavar as mãos numa poça destas de chuva? E ai nova surpresa: o aparentemente respeitável ou orgulhoso cidadão entrega à menina a parte do pão que ficara com o papel e segura em suas próprias mãos o pedaço desembrulhado. Então, com uma das mãos ocupadas (porque um pedaço de pão solto é menos fácil de segurar) e com dificuldades, junta o pacote de documentos e sua pasta umedecidos pela chuva e tenta recomeçar sua caminhada ainda sem dizer palavra. E novamente a menina fala: Senhor, eu não lhe desejo só um bom natal, eu lhe desejo um natal como o senhor nunca teve, porque quando eu pedi o pão tinha certeza que o senhor nem ia parar". Como eu caminhava lento apenas reduzi ainda mais meus passos, mas não parei e já tinha passado pela cena quando resolvi olhar para traz e vi rolarem nos olhos do cidadão lágrimas em bastante volume. O homem chorava de verdade. O natal dele não estava molhado apenas pela chuva, mas também de lágrimas e certamente lágrimas de muita felicidade.