Paulistana de Osasco (1965). Reside em Blumenau desde dezembro de 2002. Formada em Letras, escreve poemas desde os 11 anos.
Possui textos premiados em diversos concursos literários nacionais e internacionais. É membro da Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLASC). Membro fundadora do Instituto Ame Suas Rugas: www.amesuasrugas.org
Publicou “ÚLTIMO BEIJO/ ÚLTIMO BESO” (poemas), Ed. THS Arantes, S. José Rio Preto/ SP, 96 págs, 2007. Obra bilíngüe (português/ espanhol), “Terceiro Apito“ (contos e crônicas), Ed. Nova Letra, Blumenau/SC- 2007, 96 págs. –Contos e Crônicas, Estação Catarina: O Trem Passou Por Aqui (contos e crônicas), Ed. Nova letra – Blumenau/ SC- 2009 -Organizadora e coautora com mais 12 escritores e TEMPESTADE (poemas), Ed. Nova Letra, Blumenau/SC- 2010, 96 págs
A madrugada chegara ao fim e ela não tinha conseguido dormir. Impulsivamente abriu as cortinas da janela da sala e seu rosto rastreou a luz do sol. Foi quando abriu a janela de seu mundo que tomou a decisão: hoje vou apagar o passado.
Sem pautas discutidas olhou pro computador, ligou-o e começou a procurar aqueles arquivos que somente ela decifrava suas nomeações. Um amargo breve desceu pela garganta. Selecionou o primeiro arquivo, pensou, relutou. Por fim, apertou DEL. Entrou num transe de fúria incontida e foi apagando um a um sarcasticamente. Havia um riso estranho permeando o canto dos lábios. Quando terminou puxou diretamente o fio da tomada, recostou-se na cadeira e percebeu: não tem mais volta.
A lingerie vermelha veio à sua mente, comprada especialmente para aquela noite. Ainda pingava água de sabão no varal da lavação quando a arrancou num único golpe e foi para o quarto juntando às demais que se escondiam na gaveta. No trajeto, o chão tatuado de gotas de tinta vermelha. Buscou a tesoura na lata de costura, sentou no chão em posição de meditação e foi, uma a uma, picotando as calcinhas, soutiens e tudo que remetesse àquele passado. Queria poder rasgar sua vida em dois tempos e permitir a existência somente de um. Mais amargo desceu pela garganta. Engoliu em seco todas as suas dores. Sua mente fervia em ódio, desprezo e mentiras.
Foi quando avistou, dentro do guarda-roupa, sua caixa de segredos, ao fundo, sob a sombra das roupas penduradas nos cabides. Esticou-se para frente para alcançá-la e levou-a até a cama. Os lençóis, ainda revirados daquele pesadelo. Ajoelhou ali mesmo os seus pecados e como que em câmera lenta foi abrindo, sorvendo suas lembranças, seus segredinhos, presentes, fotos, bilhetes, tudo que queria transformar em nada. Um a um foi retirando os objetos da caixa e pousando sobre a cama. Sabia que era a última vez que veria essa cena. Travou os dentes. Não permitiu que seus olhos marejassem. Veio mais uma respiração pesada, sôfrega, profunda. Olhou tudo como a um sacrifício e rapidamente devolveu, um a um, para o interior da caixa. Aproveitou o espaço interno, recolhendo as lingeries picadas e soltando-as, encobrindo os becos, trincheiras, caminhos e tudo o que conseguia remeter àquela imagem. Fechou.
Agarrou a caixa junto ao peito e quase, por um segundo, pensou em se arrepender do que ia fazer. E veio outro amargo, desta vez, rasgando com mais vontade a garganta. Sentiu o odor fétido de sua vergonha corroer as paredes da laringe e desaparecer no vácuo de seu estômago vazio. Sentia-se o próprio nada. Não pensou. Percorreu a casa até a porta da lavação. Passou pela cozinha, esbarrou no fogão, roubou a caixa de fósforos. Abriu a porta do armário onde sabia o que pegar. Perdeu-se ali no tempo do desespero e acordou às voltas com o laranja das chamas. Coisas começaram a crepitar, as faíscas aumentavam e ela foi refazendo uma pauta inexistente de sua vida em sua mente. Sua cabeça fervia lembranças e lançava jatos de vergonha alimentando as chamas.
Correu de volta ao quarto e num saco de lixo jogou perfumes, jóias, livros, algumas peças de roupa, mais fotografias e poemas inacabados. Por onde seus olhos percorriam e ela encontrasse algo que a fizesse lembrar, jogava dentro do saco. Quase exausta, num choro seco, voltou à fogueira no quintal e despejou os objetos recolhidos. O saco de lixo debruçou devagar sobre a chama, por último, e enrugou-se antes de derreter. Era exatamente como a imagem daquele saco que ela se sentia.
O tempo das chamas foi diminuindo e ela permaneceu de plantão, observando, confirmando que não haveria mais volta e nada mais restaria. Cansada, foi se despindo, jogando cada peça de roupa no chão pelo caminho até o banheiro. Nua, ligou o chuveiro no frio e mergulhou primeiro a cabeça, depois ombros, membros, enfim. Desligou sua mente no gélido da água e desejou lavar sua alma de algum resquício de passado. Agachou-se no box e ali permaneceu, sem pressa. Quando terminou, passados quase 25 minutos, ela se secou, vestiu o roupão e foi conferir as horas: 10h40min. Sábado de janeiro amargo. Registrou isso num Post it e colou na porta da geladeira.
Nunca mais amou. Negou sua história. Entregou sua alma aos livros, tornou-se escritora.